Abílio Camalata Numa, director nacional da campanha do partido do Galo Negro, esmiuça as linhas de força do seu partido para a campanha que conduz às eleições legislativas de 5 de Setembro próximo. O também Secretário-Geral da segunda força mais votada nas eleições de 1992 adiantou que o seu partido tem dirigentes em quase todas as províncias do país para coordenarem no terreno as acções de campanha. Do programa estratégico, centrado na mobilização e educação cívica das populações, destacou a realização de “actividades enganadoras de baixa intensidade” que privilegiam o encontro com os eleitores ou simplesmente “actividades porta a porta”.

Como está a decorrer a campanha eleitoral do seu partido?
Está a decorrer bem. Tivemos uma fase de pré-campanha que durou o mês de Julho. No dia 5 deste mês de Agosto, fizemos a abertura da campanha eleitoral do partido na Liga Nacional Africana, aqui em Luanda, com a presença do presidente do partido, que orientou, em termos das ideias e projectos que vamos defender durante a campanha, a essência daquilo que temos estado a fazer.
Neste momento temos quase todas as delegações nas províncias. A título de exemplo, temos no Huambo a direcção da campanha chefiada pelo deputado Alcides Sakala, que conta ainda com o senhor Marcial Dachala. Em Benguela, está o engenheiro Franco Marcolino Nhany. Miraldina Olga Jamba, a presidente da LIMA, baseou-se na Huíla e o senhor Chitombi, no Bié. Temos praticamente toda a direcção distribuída pelo país. Para atender às províncias do Leste estará baseado no Moxico, o senhor Kandanda. Para o Kuando-Kubango foi Gina Chipoia e o deputado Filipe encontra-se em Cabinda, onde será coadjuvado pelo deputado Samy, que vai cuidar do Zaire. Estamos espalhados por todo território nacional.

Ficamos com a impressão de que existe, pelo menos em Luanda, algum secretismo no tocante à divulgação do programa oficial da campanha da UNITA, alegadamente por razões de segurança. Até que ponto isso corresponde à realidade?
O nosso programa vai-se desenvolvendo semanalmente. Temos um programa estratégico cujas balizas estão centradas na mobilização e educação cívica das populações. Este é o cerne da nossa campanha eleitoral. Também temos outra vertente, que é a defesa do voto, correspondente à terceira e última fase da nossa campanha. Cada uma dessas fases tem políticas diversas na sua articulação, pelo que vamos desenvolvendo o programa semanalmente, com eventos e actividades apropriadas.

Quais são os eixos principais da campanha da UNITA?
Os eixos centram-se em não perdermos nas praças onde ganhámos em 1992, designadamente Huambo, Bié, Benguela, Kuando-Kubango e Uíje. Pretendemos também criar novas praças eleitorais, porque as condições mostram-nos que tal é possível, com muita ambição, em Luanda inclusive.

Apesar de estarmos ainda no início da campanha, não temos visto em Luanda grandes actos de massas organizados pela UNITA. Que eventos o vosso partido pretende organizar?
Nós vamos dar prioridade a actividades enganadoras de baixa intensidade. Dará a impressão de que estamos numa actividade de baixa intensidade, mas na prática será o contrário. Explico melhor: nós vamos mais pelo
encontro com os eleitores nos seus locais de residência e de trabalho, através daquilo que chamamos os “jangos da mudança”, que vão começar a inundar a nossa cidade com os activistas eleitorais. Alguns destes apresentam-se à paisana e outros com material de propaganda do partido.
Nós evitamos os grandes aglomerados, porque fomos vendo ao longo do tempo que em todas as grandes actividades que realizávamos, apareciam imediatamente militantes da JMPLA a roçarem a confusão. Nós queremos evitar a confusão e o confronto. Vamos desenvolver uma actividade muito intensa nessa linha para que, de facto, Agosto seja festa e Setembro e no fim do ano continue a festa.

A UNITA já tem ao seu dispor as verbas a que tem direito no âmbito da campanha?
Já recebemos. A partir de hoje (8 de Agosto) a UNITA passou a dispor das verbas. Infelizmente, quero exprimir aqui que as verbas destinadas aos partidos para desenvolverem as suas actividades de campanha são fundamentalmente irrisórias, o valor anda à volta de um milhão e duzentos mil dólares, o que é muito pouco para um país como Angola. Só para dar um exemplo, aquela acção que o MPLA desenvolveu no Huambo, feitas as contas, não andou longe dos cinco milhões de dólares. São carros distribuídos, pessoas movimentadas de um lugar para outro, hotéis, aviões, shows, etc. Dá para ver que não se faz nada com um milhão e duzentos mil dólares.
Felizmente, nós tivemos uma antecipação em relação a isso. Há mais de um ano lançámos aquilo a que chamamos o “kit da mudança” que foi exactamente uma actividade de angariação de quotas e donativos de cidadãos e muitos participaram. São esses recursos que nos permitiram trabalhar até este momento.

Disse que tem delegações em praticamente todas as províncias. A UNITA pretende fazer deslocar dirigentes a outras províncias?
Nós teremos o reforço do presidente do partido que será o apoio mais pesado e que irá ocupar-se de algumas províncias. Vamos apertar a agenda do senhor presidente, para que cubra o máximo de províncias e, desde já, agradecemos a disponibilidade da parte dele. Outros dirigentes que estão na direcção central da campanha também farão deslocações oportunas a algumas províncias. O Maluka irá a Benguela, o Adalberto Costa Júnior fará movimentos para a Huíla e eu irei a Malanje, Kwanza-Norte e Lundas. À volta do presidente do partido estarão muitos dirigentes como o general Lukamba Paulo Gato, o Dr. Adriano Parreira e outras figuras independentes que se juntaram ao nosso partido.

Que significado atribui ao apoio de Carlos Leitão, ex-dirigente do PADEPA, à UNITA?
Foi bom. Em 1992, aconteceu o contrário, a UNITA perdeu muitos dos seus dirigentes pesados. Agora os angolanos estão mais conscientes, perceberam o que se está a passar e notam que a verdade está do lado onde se luta efectivamente pela democratização de Angola. Hoje, esta caravana do amplo movimento para a mudança tem estado a engrossar. Foi uma decisão muito sábia, temos a certeza que nos próximos anos assistiremos a mais intervenções de angolanos conscientes da sua nobre missão de fazermos de Angola um país melhor para todos.

Mesmo não tendo participado directamente na campanha eleitoral da UNITA em 1992, por se encontrar nas FAA, quais são as grandes diferenças que observa entre esta campanha e a de 1992?
Muitas. A campanha de 1992 andou em volta da força do presidente fundador. O partido andou a reboque, agora está muito mais estruturado, tem quadros mais actualizados em relação à luta política. Só para dar um exemplo, em 1992, no Kwanza-Sul, a UNITA estava em cinco municípios, hoje está em todos os municípios.
Luísa Rogério -JAngola