
A epidemia de cólera que assola a Guiné-Bissau desde Maio já causou a morte de 73 pessoas, sendo registadas 3.275 infecções, revelou Cunhate Na Bagna, diretor do serviço de comunicação do Ministério da Saúde Pública.
O responsável afirma que "a cólera continua a se alastrar porque a população não quer acatar as recomendações" das autoridades sanitárias, que são anunciadas "diariamente e em todos os órgãos de comunicação social".
A cidade de Bissau é a mais afetada, com 20 mortos e 2.400 casos, seguida por Quinara (187 casos, 17 mortos) e Biombo (315 casos, mas apenas seis mortos).
A população ainda mantém rituais e costumes considerados "perigosos" pelas autoridades, como a realização de cerimónias com aglomeração de pessoas e a venda de comida e água pelas ruas, ignorando os apelos do Ministério da Saúde.
Uma activista da organização Médicos do Mundo, que pediu anonimato, afirmou nesta quarta-feira que a população do bairro do Bandim Bilá, em Bissau, está a retirar dos poços produtos colocados para desinfetar a água.
"Colocamos produtos de desinfecção da água para matar o cólera, mas a população está tirando. Uns dizem que aproveitam a corda para uso doméstico, outros dizem que não conseguem beber a água desinfetada pelo sabor que apresenta", afirmou a voluntária.
Desde a semana passada, a organização não-governamental está a ajudar as autoridades sanitárias guineenses no combate à doença, desenvolvendo, entre outras ações, a campanha para esterilizar a água dos poços de Bissau.
A desinfecção é feita com uma garrafa de plástico, amarrada por uma corda, contendo uma mistura de pedras e areia com hipocloreto de cálcio, que deve ficar dentro do poço por 24 horas para que o produto se dilua lentamente.
"Está provado que, numa epidemia de cólera, a água do poço é, muito freqüentemente, fator de propagação da doença. Ao fazermos a desinfecção num poço, reduzimos os riscos de infecção em grande porcentagem", afirmou Xavier Hospital, chefe da missão da Médicos do Mundo na Guiné-Bissau.
Xavier Hospital disse desconhecer a situação no bairro de Bandim Bilá, mas admite ser "muito difícil" fazer a população mudar os comportamentos de risco.
"É muito difícil avaliar seriamente o comportamento da população sem fazer um inquérito, fazer comparação depois da intervenção. Temos noção de que é muito difícil mudar o comportamento geral da população, mas esperamos que alguma coisa comece a mudar", afirmou.
Além da desinfecção dos poços em Bissau, a Médicos do Mundo está apoiando a formação de agentes e promovendo uma campanha de sensibilização de porta em porta. A organização também supervisiona e distribui água sanitária e ajuda o Hospital Simão Mendes no controle das entradas e gestão de doentes.
Lusa