Negócios e economia converteram-se após a guerra civil angolana (2002) no eixo das relações entre Portugal e Angola, e depois de o investimento e empresas portuguesas terem inicialmente marcado o ritmo, agora é Luanda a afirmar-se.

A mensagem de afirmação angolana ficou clara sobretudo nas palavras de Manuel Vicente, presidente da petrolífera estatal angolana Sonangol, que em entrevista à Lusa em Fevereiro deste ano sentenciou o fim de um prolongado diferendo com a Galp Energia sobre o controlo da distribuidora de combustíveis cabo-verdiana Enacol.

"A Galp hoje tem de obedecer às nossas instruções em Cabo Verde. Não há batalha nenhuma. Nós somos os patrões, vamos ditar as regras do jogo. Ponto final", afirmou à Lusa o presidente da Sonagol, que detém um terço da petrolífera portuguesa, em parceria com a Amorim Energia.

Com o Estado português em vias de vender os sete por cento de capital que lhe restam na Galp, a italiana Eni veio também afirmar que se não alcançar o controlo da empresa, venderá os seus actuais 33 por cento, o que abriria a porta a um eventual reforço por parte de Sonangol e associados.

A acção da Sonangol estende-se a outro sector estratégico da economia portuguesa, a banca, tendo-se convertido recentemente no maior accionista do maior banco privado do país, o Millennium Bcp.

Paralelamente, a petrolífera tem sido o veículo do regime de Luanda para reforçar o capital angolano na banca local, em particular no Millennium Angola e no Fomento (grupo BPI), no que a Universidade Católica de Angola (UCA) qualifica de processo de "transferência de centros de decisão" para Angola.

"A estratégia governamental de transferir de Lisboa para Luanda os centros de decisão das instituições financeiras portuguesas com actividade em Angola tem tido como principal agente a Sonangol", lê-se no Relatório Económico de Angola 2007, do Centro de Estudos e Investigação Científica da UCA, um estudo recentem
ente publicado e coordenado pelo economista angolano Alves da Rocha.

A Sonangol, segundo o relatório, já adquiriu ou está em vias de adquirir 49,9 por cento do Millennium BCP Angola, 49 por cento do BPI e 25 por cento do Totta-Angola, instituição financeira angolana que envolve o Santander e a Caixa Geral de Depósitos.

O "ataque ao mercado financeiro português", salienta, é também uma forma de lançar a internacionalização da economia angolana, processo que tem outro "eixo fundamental" no Brasil.

Os números do investimento directo de Angola em Portugal traduzem a tendência de implantação dos privados angolanos e apontam para um quase certo recorde este ano.

Só no primeiro trimestre do ano, o investimento angolano ascendeu a 16,7 milhões de euros, superando em 25 por cento o registado em 2006 e próximo do máximo de 17,6 milhões registado nos doze meses de 2007.

As trocas comerciais têm vindo a crescer de forma contínua e desde 2007, Angola é o maior mercado extra-comunitário de Portugal, à frente dos Estados Unidos, com 1,68 mil milhões de euros de vendas de produtos e serviços.

Este ano, mantém-se a tendência de escalada das exportações angolanas para Portugal, essencialmente constituídas por petróleo e gás, que subiram sete vezes no ano passado (para 369,5 milhões de euros) e outros 40 por cento até Abril, preparando-se assim para fixar novo máximo histórico.

Na sua última visita a Angola, em que presidiu às cerimónias do Dia de Portugal na FILDA - Feira Económica de Luanda a 17 de Julho, o primeiro-ministro português, José Sócrates, levou consigo os ministros da Economia e das Finanças, além dos secretários de Estado do Tesouro e da Cooperação, e não poupou nas palavras de elogio ao papel dos empresários na aproximação entre a ex-colónia e a ex-metrópole.

"Se a franca e excelente relação entre os dois governos permitiu estabelecer a melhor base institucional para as relações bilaterais, não há dúvida que coube aos empresários a parte mais significativa deste trabalho que se mede não só em números, como em laços de intercâmbio", afirmou então José Sócrates.
Lusa