No dia 16 de Novembro próximo os guineense irão, mais uma vez, exercer a sua cidadania através das urnas, escolhendo, no seu entender, o(s) partido(s) que irá(o) governar o país, nos próximos quatro anos. No entanto, as experiências – de outras tantas eleições – demonstram que, o processo democrático guineense ainda está em construção. Actualmente com duas grandes contrariedades em crescente. A primeira é a fragmentação politica-partidária. A segunda, refere a consolidação da solidariedade confinada (seja étnica, seja religiosa) dos votos. Não obstante estas verdades, é reservado ao povo guineense - após escolhas que permitiram governações desastrosas - a hipótese de uma (segunda) oportunidade de escolha. Ao nosso entender, tendo em conta o aclamar dos votos, Carlos Gomes Júnior (líder do PAIGC) – que neste momento parece ter mais eleitorado do que o seu próprio partido – representa, pelo menos (em teoria), a esperança do povo. A ver vamos.
Opinião
João Ribeiro Butiam Có –
Sociólogo
No dia 16 de Novembro próximo os guineenses serão, uma vez, convidados a exercerem a sua cidadania através das urnas, escolhendo, no seu entender, o(s) partido(s) que irá(o) governar o país, nos próximos quatro anos. As experiências – de outras tantas eleições – demonstram que os guineenses ainda estão em fases de experimentação democrática, devidos as escolhas do passado e os efeitos (das mesmas) no presente. Porém, é um desafio importante – mais uma vez – no percurso e crescimento da jovem democracia guineense.
Ainda assim, o (curto) ciclo democrático testemunha dois grandes momentos. Por um lado, o período de 1994 à 1999 e, por outro, o período após eleições de 1999 à data presente. Apesar disso, ambos trouxeram algumas experiências para a democracia guineense. A primeira experiência foi de 1994, onde o PAIGC – perante (fracos) concorrentes, o Movimento Bafatá (RGB-MB); a União para a Mudança (UM); e o Partido da Renovação Social (PRS) – conseguiu ganhar com a maioria absoluta (ainda que em pequena margem). Este período teve como alguns elementos a sublinhar, na vitória do PAIGC, a (então) máquina do partido no poder, que permitiu destruir antecipadamente o (então) principal opositor, RGB-MB.
Esta fase, que pode ser caracterizada de pouca consciencialização da população em relação aos prós e contras do multipartidarismo africano (e guineense), permitiu que o partido que tinha dado a abertura ao multipartidarismo (em 1991) ganhasse as eleições (em 1994). Outros factores, exemplo da fragmentação “moderada” do sistema partidário guineense, o início do alinhamento dos votos em solidariedade confinada, não tinham (ainda) perturbado a democracia guineense. Apenas sete (7) partidos tinham concorrido. Todavia, durante esse período, assistia-se a emergência do PRS e do seu líder Kumba Yala (actualmente Mohamed Yala).
A experiência das eleições de 1999, trouxe uma mudança na intenção de voto. É um período que confirma a ascensão do PRS, por várias razões (incluindo as consequências da guerra sete de Junho), mas sobretudo, por ser período de grande entusiasmo a volta do seu líder Kumba Yala, como personagem capaz de – no entender do povo guineense – levar o país à mudanças necessárias. Todavia, aumentou o nível de fragmentação do sistema partidário guineense, com onze partidos a concorrer as legislativas. E, a partir desse momento, sustenta-se a tese da “solidariedade confinada” dos votos. Disso, o exemplo do surgimento (nas eleições de 1999) de três grandes partidos (PRS; RGB-MB; PAIGC) a dividir os assentos parlamentares (38; 28; 24 respectivamente), sob olhar de alguns pequenos partidos (UM; PSD; FDS e UNDP).
A segunda fase, da experiência do eleitorado guineense, começa em 2004 à data presente. Com dois factores negativos (interligados entre si). Tendo sido um entrave à consolidação da democracia guineense. Primeiro é o factor da consolidação do voto na base da “solidariedade confinada”; segundo é a consolidação da fragmentação profunda do sistema partidário guineense. Fase de experimentação e fragmentação politicas, de vários partidos, com surgimento de algumas personalidades que, devido a ansiedade crítica dos momentos, se tornaram em “grandes” líderes. Disso, o exemplo de Francisco Fadul no PUSD, agora no PADEC; e mais recente o Aristides Gomes no PRID.
A fraca vitória (sem maioria absoluta) do PAIGC nas eleições de 2004, teve como consequências dois factores. Primeiro, é a anunciada fraqueza e “auto-destruição” politica do Kumba Yala (quem o povo tinha depositado toda a confiança em 1999). Isto, devido à várias atrocidades, inconstitucionalidades, exonerações e quedas dos sucessivos governos ( tendo como consequência o regresso do Nino ao poder, nas eleições presidenciais de 2005). A par disso, o surgimento do Fenómeno “Fadul” que, no entender do povo, representava uma (nova) alternativa. O segundo factor, aliava-se a desconfiança da população em geral dos políticos e dos partidos por um lado, e por outro, a acentuada fragmentação do sistema partidário e a solidariedade confinada dos votos. Elementos que continuam a constituir grandes obstáculos à maturação da democracia guineense, e que muitos dos actores políticos têm sabido tirar proveito para a sustentação das suas intenções egoístas.
A relação entre os guineenses e a formação das estruturas guineenses, têm demonstrado que a infeliz guerra de sete de Junho, as eleições presidenciais de 2005, deixaram grandes divisões no povo guineense. E, por consequência, constituem o mote para uma nova ordem do poder na Guiné-Bissau. O país passou e vive de tensões e conflitos latentes, que fizeram crescer a incrustação das pessoas, ao ponto de se perfilarem em confinações de votos étnicos e/ou religiosos. O que leva a concluir que, a fragmentação do sistema politico-partidário, condiciona a sociedade guineense à uma divisão étnico-religiosa e vice-versa.
Porém, estes dois grandes momentos da vida (ainda curta) do ciclo democrático guineense, representam uma falsa partida, nas escolhas que o povo fez, e a consequente advertência. Perante este desafio, apesar da contínua fragmentação politica partidária (exemplo do surgimento de forças politicas como o PRID e PADEC), e a confinação da solidariedade étnica/religiosa, dos votos, é reservado ao povo guineense - após escolhas que permitiram governações desastrosas - a hipótese de uma segunda oportunidade de escolha. Ao nosso entender, tendo em conta o aclamar dos votos, Carlos Gomes Júnior (líder do PAIGC) – que neste momento parece ter mais eleitorado do que o seu próprio partido – representa, pelo menos (em teoria), a esperança do povo. A ver vamos.