Virgilio Brandão- Advogado





As coisas verdadeiramente importantes acontecem sem que se dê por elas; quer porque são ignoradas pelos media quer porque as ignoramos por estarem inscritos na nossa indiferença. 2008 foi, sem dúvida, o ano da fome em todo o Mundo.

Cerca um bilhão de pessoas (963 milhões) foram vítimas da fome em 2008, dizem os relatórios da FAO/ONU. Mais 14% do que no ano anterior, isto é, mais 40 milhões de pessoas que entraram no universo da fome e a sofrer de má nutrição por causa do aumento do preço dos alimentos. Para se ter uma visão prática desse crescimento, falámos de 4 (quatro) vezes toda a população de Portugal, ou 80 (oitenta) vezes toda a população cabo-verdiana (isso considerando a população de 500.000 – quinhentos mil para o arquipélago) em relação ao ano anterior.

Essa multidão entrou silenciosamente no ano de 2009, sem fogo de artifício, sem iguarias, sem excessos de euforia; a não ser o excesso de fome e de artifícios para enganar para enganar os estômagos a sonharem iguarias de pobres entre os pobres: pão, milho, trigo, feijão, leite…

O problema do aumento dos preços, sendo em si um problema, só tem assumido o papel de situação homicida por causa dos (a) problemas estruturais dos países pobres que, por incapacidade emergente de um "não poder" ou um "não saber" gerir a coisa pública e (b) uma omissão criminosa de solidariedade que colocam parte substancial dos seus países em desenvolvimento em pobreza estrutural. Na verdade, numa leitura transversal – ainda que an passant – da situação, é fácil verificar-se que, além do factor guerra/conflito armado, é nos países onde a condição social da mulher é mais frágil que se verifica uma maior incidência da fome. É um diagnóstico com décadas… sim, com décadas!

Assim, verifica-se que a maioria das vítimas da fome está nos países em vias de desenvolvimento, sendo que 65% (segundo os dados da FAO) dessas pessoas se encontram em sete países: Etiópia, Índia, China, Bangladesh, Republica Democrática do Congo, Indonésia e Paquistão. Isso para não falar de outros níveis de pobreza – aqui está-se a falar de pessoas a viverem em estados de pobreza ex
trema e vivendo com menos do que aquilo que um ser humano precisa para sobreviver – e dos casos gritantes do Sudão, Serra Leoa, da Somália...

Isso para não falar de uma outra pobreza envergonhada, aquela que se esconde atrás de uma ideia forçada de progresso mas que, na verdade, é desmascarado com a verdade dos cidadãos que descem a sua alma além das raias da fome e procuram comida nos caixotes do lixo de muitas cidades, de África à Ásia, passando pela Europa.

Um facto é incontornável: a produção mundial de alimentos precisa de ser aumentada para fazer face à crise alimentar que o Mundo menos desenvolvido está a enfrentar. Se calhar nem seria preciso, bastaria uma solidariedade efectiva. Mas isso não acontece, mesmo considerando que a crise da abundância não deixa de estar instalada na alma e na mesa dos países mais ricos, dos que têm mais do que precisam e desperdiçam, de forma ostensiva, o que é necessário para salvar vidas.

Nem mesmo os que se dizem cristãos se safam desta hediondez – havendo mesmo quem tenha silos com alimentos para os «irmãos» na prevista crise do fim dos tempos e não falta quem pense em seguir este exemplo de aforrar alimentos para o amanhã. Amanhã… «… tive fome e deste-me de comer…» – disse Jesus Cristo, não foi? Pois foi… mas a crise da abundância e a economização do Evangelho é um facto que estrangula o próprio Cristo e a sua mensagem. A regra de ouro tornou-se amor ao ouro; o cristianismo ocidental agoniza com os pobres do Mundo – empobrece com a sua fome e morre com ela, lentamente... mesmo no plano cultural (que é um aspecto negligenciado desta questão).

A verdade é simples: em 2008 a fome e a indiferença ganharam terreno considerável à humanidade; ficamos mais pobres, não por causa de podermos comer mais ou menos e de, objectivamente, haver mais 40 milhões de pessoas a sofrer a fome da pobreza extrema: ficamos mais pobre porque a nossa indiferença perante o sofrimento alheio é afrontosa; assim como é afrontosa a ajuda dos países mais ricos do Mundo aos banqueiros e especuladores do planeta (em grande parte culpado por muito do mal de origem material que nos afronta), enquanto se esquecem dos que morrem, lentamente, na Etiópia, no Sudão, no Bangladesh, na República Democrática do Congo…

Terminou o ano da fome, no calendário. A fome não terminou, continua a avançar, lentamente, inexorável… mas não é uma fatalidade, não. Os mais pobres devem ser, têm de ser, a prioridade dos governantes do Mundo – em particular no presente contexto económico e social ao nível global; mas, paradoxalmente, não foi o que auscultei em muitos discursos de Natal e de fim de ano por este mundo fora…