
Em Moçambique já foram linchadas este ano pelo menos 20 pessoas, 18 por roubo e duas por feitiçaria, segundo dados hoje divulgados em Maputo numa conferência sobre criminalidade.
Carlos Serra, sociólogo e professor da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, explicou à Lusa que os linchamentos em Moçambique são "um caso muito sério" e que "a tendência é para aumentar", especialmente se forem tidos em conta os casos de pessoas linchadas por acusação de feitiçaria.
O responsável, que hoje foi o orador de um painel sobre o tema, lembrou o caso, do passado domingo, em que cinco mulheres mataram dois tios, acusando-os de feitiçaria.
O sociólogo considerou que "preocupante é também a crença delas, que estão na prisão, onde continuam a acreditar que agiram bem".
"As pessoas que matam festejam a morte porque acreditam que aquele ser foi justamente eliminado", explicou à Lusa, acrescentando que os linchamentos se realizam sobretudo de noite e que os principais focos são nos distritos de Maputo e Sofala.
Ao falar sobre "Violência Colectiva", no âmbito da conferência, Carlos Serra considerou o caso tão grave que propôs que fosse criada uma Unidade de Prevenção dos Linchamentos, a funcionar junto do Ministério da Justiça, que se crie uma base de dados em permanente actualização, e que se faça um grande trabalho de sensibilização junto das escolas.
O soció
;logo lembrou um caso do ano passado, quando um grupo de crianças queria linchar outras que acusara de roubar borrachas (de apagar), e citou um estudo envolvendo crianças do primeiro ciclo que considerou alarmante.
Nesse estudo, contou, pedia-se às crianças que fizessem uma redacção a contar o que consideravam que se devia fazer a um ladrão que fosse apanhado, e depois outra se, em vez de um ladrão, fosse um feiticeiro.
Quase metade das crianças disse que se devia bater no ladrão e depois entregar à polícia, e a esmagadora maioria defendeu que o feiticeiro tinha de ser morto. Só 3,7 por cento defendeu que o ladrão devia ser entregue à polícia.
Em África, os linchamentos acontecem sobretudo na Tanzânia e em Moçambique, disse o sociólogo. Na Tanzânia, entre 2000 e 2004, foram linchadas 1.249 pessoas, acusadas de roubos, homicídios e violação de costumes locais.
Em Moçambique, no ano passado, em zonas suburbanas, foram registados 50 linchamentos, uma parte por espancamento e outra queimada com pneus.
Carlos Serra lembrou ainda que, entre Junho de 2002 e Maio de 2003, na província de Cabo Delgado, foram linchadas 18 pessoas, acusadas de comandarem magicamente sete leões que comeram 46 habitantes.
A pobreza, o desemprego, a guerra civil e a colonização são factores que podem potenciar os actos de violência em Moçambique, agravados com a percepção da população de que a polícia é corrupta e que a justiça não actua, disse Carlos Serra.
O sociólogo avisou ainda que se a situação decorrente da crise mundial se agravar e, se aumentar o número de refugiados em Moçambique, os casos de linchamento podem aumentar.
CM