
Praianas é o livro de poemas a ser de José Luis Hopfer Almada lançado hoje na Associação Caboverdiana em Lisboa.
De acordo com um excerto do posfácio de Rui Guilherme Gabriel ao livro "Praianas-revisitações do tempo e da cidade", a filiação literária de “Praianas”, como acontecia com Assomada Nocturna, pode (…) situar-se entre a épica do século XX e o Bildungsroman realista definido por Bakhtin. Quanto a este aspecto, e a propósito ainda de Assomada Nocturna, Inocência Mata afirmou precisamente que o tempo revivido por NZé di Sant’ y Águ “pode considerar-se a fase de «conhecimento do mundo»”; daí que fosse esse um tempo “cujo significado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o sujeito quer recuperar na sua significação histórica”, como é comum suceder no Bildungsroman realista. Já se pensarmos noutras revisitações, mais ou menos épicas, aos lugares da formação pessoal ou colectiva, poderemos encontrar afinidades entre estes dois livros cabo-verdianos e um Cahier d'un Retour au Pays Natal, de Césaire, um Éloges ou um Anabase, de Perse, ou mesmo um Paterson, de William Carlos Williams. Com este, além do recurso a
o collage, há a coincidência do topónimo e do antropónimo, já que “NZé di Sant’y Águ” é também um pseudónimo gentílico.
Sobre a herança do martinicano, enfim, devemos recordar a entrevista do autor a Michel Laban: no período pós-independência, explica Almada, “fazíamos como que uma conjugação entre o surrealismo na forma (…) e um certo engajamento político –, até que descobrimos Aimé Césaire e chegámos à conclusão que (…) essa conjugação era possível...”. A incrustação de frases ou versos alheios no corpo do poema, a recorrência da anáfora e do discurso metafórico, a exuberância e a virulência vocabulares, a encenação articulada de ambientes rurais e urbanos, a consciência política africanista e libertária ou o recurso à arma miraculosa da cultura ocidental (como queria também T. Tio Tiofe) são partes do património comum aos dois poetas insulares.
Por sua vez, os sucessivos Leaves of Grass, de Walt Whitman, The Cantos, de Ezra Pound, ou Poesía Vertical, de Roberto Juarroz, partilham com “Praianas” esse estatuto de work in progress adquirido nas alterações, acrescentamentos ou restaurações progressivos de um projecto iniciado cedo na vida literária do autor – no caso vertente, com a redacção, em Leipzig, no início dos anos 80, da primeira versão de Assomada Nocturna.