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Estudantes dos PALOP na China
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Por Africanidade
Publicado em 31/05/2010
 
Trocaram um gigante por outro. E alguns partiram com a ideia de voltar. São jovens que deixaram África para estudar na China. Alguns com bolsa, outros sem qualquer apoio, encontraram em Macau uma porta para o Oriente e uma oportunidade de futuro. Onde quer que este aconteça.


Reportagem
Trocaram um gigante por outro. E alguns partiram com a ideia de voltar. São jovens que deixaram África para estudar na China. Alguns com bolsa, outros sem qualquer apoio, encontraram em Macau uma porta para o Oriente e uma oportunidade de futuro. Onde quer que este aconteça.

Halen Armando Napouco, da Guiné-Bissau, Evandro Moreno, de Cabo Verde, e Ivan Caetano, de Moçambique, são apenas alguns dos africanos que estudam na Universidade de Macau ao abrigo de bolsas. É na biblioteca da instituição que marcam encontro com o DN. A universidade é a primeira e segunda casa. É lá que moram e é lá que estudam Direito.

Desde a criação da RAEM que a Universidade de Macau recebe cerca de 40 a 50 estudantes por ano vindos de África. Segundo explicou ao DN o vice-reitor, Rui Martins, vêm ao abrigo de um programa de bolsas para alunos de países de expressão portuguesa - em vigor desde os anos 90 -, que resulta de uma parceria entre a instituição e a Fundação Macau. A maioria vem para a licenciatura de Direito em português, mas há quem venha também para os mestrados.

Halen, no quarto ano de Direito, era "fã dos filmes chineses de karaté" e tinha curiosidade em conhecer a China. O curso que mais queria era Gestão Hoteleira, para aprender a potenciar o turismo na Guiné, mas, "por ironia do destino", foi parar a Direito. E não se arrepende.

Já Evandro - em Macau há mais de dois anos e meio - sonhava estudar em Lisboa ou Coimbra. A vida trocou-lhe as voltas. Em Cabo Verde, "não é fácil conseguir uma bolsa"; portanto, não hesitou quando surgiu a oportunidade de ir para Macau com o curso pago.

O caso de Ivan é diferente. Assistente estagiário numa universidade em Moçambique, foi para Macau para tirar um mestrado na área do Direito Internacional, em inglês. A língua assustou-o mas enfrentou o medo e rumou a Oriente - como diria a mãe, "ofertas não se recusam". Está perto de entregar a tese e espera voltar para ca-sa no Verão.

Em Macau, encontraram uma "vida boa" e amigos a que chamam de "irmãos" - Ivan diz que "a magia de Macau é aproximar as pessoas, multiplicar sentimentos". Nenhum dos três fala cantonense, mas Halen chegou a ter aulas de mandarim, depois de ter sido apanhado a dar erros de português de propósito para ficar colocado na cadeira de língua portuguesa.

Ivan e Halen têm na pele um espírito de missão. O moçambicano de 28 anos lembra que, no seu país, os momentos históricos "foram marcados pelo papel da juventude". Hoje, diz, o tempo é de "viragem", de "combate contra a pobreza absoluta" e de "luta para levantar a auto-estima" do povo. Por isso quer voltar para dar o seu contributo - na área académica e noutras, como o Direito. "A democracia é um edifício que estamos a construir."

Também Halen quer voltar à Guiné para "fazer a diferença", num projecto empresarial. Diz que o país está "cheio de potencialidades" e de jovens "com vontade de se formar" … é preciso é "mudar mentalidades" de um "regime enraizado", porque "o maior problema de África", sentencia, são "os líderes".

O ideal de Evandro também seria voltar a Cabo Verde, mas confessa: "Às vezes fico um pouco indeciso." Vem-lhe à memória os muitos recém-licenciados que voltam ao país e caem no desemprego. Depois da licenciatura vai procurar emprego e não fecha a porta a ficar em Macau, se a oportunidade surgir. Mesmo que lhe custe viver "num espaço tão pequeno".

Saudades? Vem-lhes à mente a família e os olhos alagam-se. Mas as lágrimas não caem. É mais um brilho. Como o das estrelas que teimam em não aparecer nos céus nebulosos de Macau. Ivan diz que, de noite, "tem o cuidado de olhar para o céu", porque é lá que está Deus. Mas não encontra "as três Marias" nem as estrelas cadentes que em Moçambique lhe valiam desejos. Sonha abraçar a mãe e mergulhar na praia - não necessariamente por esta ordem.

Já Evandro sente falta da filha Vanessa, de três anos e meio. E dos "convívios". Dos amigos, da cachupa, do kizomba das discotecas cabo-verdianas. E mais não quer falar de saudade.

Halen - que ainda não conhece um dos irmãos, nascido enquanto ele estava em Macau - sente falta da família, mas também de ver o horizonte. Abre um sorriso para descrever "o enorme manto azul" que é o céu da Guiné, e o "manto verde" que é o chão. Na ilha da Taipa - onde fica a universidade - encontrou um refúgio, num monte que se ergue frente a um hotel-casino. É para lá que sobe, quando está bom tempo. O caminho, à noite, "é aterrorizador", mas vale a pena, diz ele. É que lá em cima, "no momento certo" de um qualquer mês, avista-se a Lua e cheira a casa: a árvores e "a quando se molham as estradas de terra batida".

Halen, Evandro, Ivan e Francis vêem com bons olhos as actuais relações económicas da China com África: há obras a nascer, ajuda a chegar e milhares de bolsas para estudantes como eles. Pequim, diz Ivan, tem "uma atitude diferente do Ocidente", "não tem a nódoa do colonialismo" e não impõe medidas em troca de ajuda. Halen resume: "Todos precisam da China e a China precisa de África." A relação está a dar frutos, garante Ivan - cabe aos líderes africanos negociar bem, "para não ficarem aprisionados".

A China tem uma atitude diferente da do Ocidente.
Não tem a nódoa do colonialismo e não impõe medidas em troca de ajuda"
Era fã dos filmes chineses de karaté e tinha curiosidade em conhecer a China. O curso que queria era gestão hoteleira para potenciar o turismo na Guiné, mas por ironia do destino fui parar a Direito"

Às vezes fico um pouco indeciso [quanto a regressar a Cabo Verde].
E não fecho a porta a ficar em Macau. Mesmo que me custe viver num espaço tão pequeno"
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