A Líbia arrisca-se a ser o próximo Estado a sucumbir à onda de revoltas que assola os países árabes.
O destino da Líbia foi rescrito por um homem com menos de 30 anos. A 1 de Setembro de 1969, um grupo de oficiais levou a cabo uma revolta contra o rei Idris, acabando com a monarquia. Muammar Khadafi, um capitão de apenas 27 anos, foi colocado no poder.

Khadafi começou por abraçar entusiasticamente o pan-arabismo, uma ideologia que na altura tinha muitos adeptos no mundo árabe. Apesar de na sua génese o movimento ter uma influência religiosa reduzida, Khadafi cedo apelou ao Islão como uma inspiração. A Líbia é um país uniformemente muçulmano, de esmagadora maioria sunita, com uma pequena minoria ibadita.

Depois da morte de Nasser, no Egipto, Khadafi tentou tomar o seu lugar liderando o processo de unificação política dos países árabes. Chegou a haver acordos de unificação com o Egipto e com a Síria, e depois com a Tunísia, mas estes nunca chegaram a ter aplicação prática.

Findo o sonho pan-árabe, Khadafi procurou estabelecer-se como patrocinador e inspirador de movimentos de libertação por todo o mundo, o que lhe mereceu a reputação de financiador de grupos terroristas. Entre outros, suspeita-se da sua ligação ao grupo que sequestrou e assassinou membros da comitiva israelita nos Jogos Olímpicos de Munique e o bombardeamento do avião da Pan Am por cima da cidade de Lockerbie, na Escócia. Conhecem-se ainda ligações a grupos como o IRA, na Irlanda do Norte, e a movimentos de libertação palestiniana.

A hostilidade entre Khadafi e o Ocidente atingiu o seu auge durante o regime de Reagan. O presidente americano chegou a ordenar ataques à Líbia, mas Khadafi tem-se mostrado sempre muito resistente a golpes e tentativas de assassinato.

Em 1975, Khadafi escreveu o seu “Livro Verde”, que resume a sua ideologia e defende a “democracia islâmica”. Mais recente
mente, e à medida que tem visto diminuir a sua influência no mundo árabe, virou as suas atenções para África, o continente ao qual a Líbia pertence, propondo a unificação do continente nuns Estados Unidos de África. Apesar de ser eleito secretário-geral da União Africana, as suas ideias para o futuro político do continente não carregam muito peso noutros países africanos.

No mundo pós-11 de Setembro, as relações entre a Líbia e o mundo ocidental sofreram uma melhoria significativa. Khadafi deixou de apoiar publicamente movimentos terroristas e abandonou os seus planos de aquisição de armas nucleares. Em contrapartida, os mercados abriram-se, permitindo a Khadafi encetar uma modernização estrutural do seu país.

Historicamente, a Líbia goza de uma relação próxima com a Itália, a sua antiga potência colonial. As relações com os restantes países europeus variam entre a hostilidade aberta, com o Reino Unido à cabeça, e a indiferença.

Nos últimos anos, e fruto de um grande esforço de desenvolvimento da Líbia no campo das infraestruturas, várias empresas portuguesas têm investido no país, descrito em 2010 pelo então ministroda Economia Manuel Pinho como “um mercado excelente”. O Governo abriu inclusivamente uma delegação da AICEP no país.

O contágio das revoluções
Depois da queda do presidente da Tunísia, que Khadafi lamentou publicamente, e do sucesso da revolta contra Mubarak, no Egipto, vários países têm sofrido convulsões semelhantes, com o Íemen, o Bahrein e a Líbia à cabeça, tudo países com uma grande maioria de jovens entre a sua população.

Nas últimas horas, os tumultos na Líbia atingiram grandes proporções, levando a várias mortes e com o filho de Khadafi a avisar para o perigo de uma guerra civil. Com os países ocidentais a procurar retirar os seus cidadãos do país, as próximas horas serão decisivas para ver se Khadafi, no poder há mais de 40 anos, resiste ou sucumbe ao poder popular que tem tomado as ruas e as praças árabes.
Renascença