O director-geral da TACV afirma que a empresa está a ser alvo de uma "campanha política" liderada por um grupo de pilotos, o que compromete o desenvolvimento da transportadora aérea cabo-verdiana.

Gilles Filiatreault, gestor canadiano que há cerca de um ano e meio ascendeu ao cargo de topo da TACV com o objectivo de conduzir a empresa financeiramente debilitada à privatização, reagiu assim, em entrevista à Lusa, à divulgação de uma carta aberta pelo jornal "A Semana" em que um grupo de trabalhadores, exige a demissão da direcção que acusa de incompetência

Para o gestor da TACV, "há uma campanha política em Cabo Verde" em torno da TACV, e "o movimento está a ser liderado pelos pilotos", alguns ligados a partidos da oposição, com a colaboração da imprensa.

"Algumas dessas pessoas [contestatárias] são membros do partido da oposição. Espero que a TACV não esteja a ser usada como um instrumento político para servir os fins dos políticos", afirmou hoje à Lusa Filatreault, também director comercial da empresa, que se encontra em Lisboa para contactos com operadores turísticos portugueses.

Na carta aberta, os trabalhadores afirmam que a empresa regista uma média de 63 por cento de atrasos num total de 331 voos desde dia 13 de Março, número que o gestor afirma que "provavelmente está errado", ainda que reconheça a existência de grandes atrasos, que atribui ao boicote por alguns pilotos.

O director-geral da TACV adianta que nove pilotos da companhia aérea foram sujeitos a investigação nos últimos dois meses, por incumprimento dos regulamentos e faltas frequentes ao trabalho alegando motivos de saúde.

"A maioria [das investigações] está relacionada com o facto de pessoas não seguirem as ordens. Temos pessoas que, sem razão, ligam a avisar que não podem ir trabalhar porque estão doentes, o que nos obriga a um esforço diário para encontrar pilotos. Um piloto ligou a avisar que não ia voar porque esteve a almoçar com amigos e bebeu uma cerveja. Mas sabia que ia voar e não foi suficientemente profissional para não tomar cerveja", relata.

"A atitude tem de mudar, estamos a trabalhar numa companhia aérea profissional", disse à Lusa Filatreault.

A legislação laboral cabo-verdiana exige que seja feita uma investigação específica antes que qualquer acção disciplinar possa ser tomada contra algum trabalhador.

Outro exemplo evocado por Filatreault deu-se há poucos dias, tendo um desentendimento entre dois funcionários da empresa impedindo que fosse trazida de Boston, Estados Unidos, uma peça necessária para reparar um aparelho, obrigando a que estivesse parado uma semana inteira.

"Isto é totalmente inaceitável e demonstra como as pessoas pensam nelas próprias e não na empresa. Durante sete dias tivémos de realinhar o nosso programa de voos e sofrer atrasos por causa de uma estupidez, uma simples estupidez, lamento ter de dizê-lo", afirma.

"Os cabo verdianos são trabalhadores muito bons, quanto vão para o estrangeiro são fantásticos ou na maioria das empresas privadas de Cabo Verde dizem-me que são muito bons. Mas na TACV, por alguma razão que estou a tentar perceber há 15 meses", a situação é diferente.

"Muitas mudanças são necessárias [na TACV] e estas pessoas não estão dispostas a mudar. Estão apenas dispostas a servir a TACV desde que retirem benefícios pessoais disso. Têm a sua própria agenda", afirma.

Para o gestor, os contestatários são uma "minoria" entre os trabalhadores da TACV,
mas contam com o apoio da imprensa local.

"Os jornais não verificam as fontes. Nunca fui contactado por um jornal para me perguntarem se uma coisa é verdade ou não. Limitam-se a escrever aquilo que lhes dizem", acusa.

Além disso, adianta, há "fugas de informação [da empresa] para os media", cujos autores "estão identificados", tratando-se de pessoas que perderam postos ou regalias.

"A TACV é uma bandeira do país, e neste momento estas pessoas não estão a trabalhar para isso. São coisas estúpidas com que as pessoas estão preocupadas. Penso que neste momento deveriam estar mais preocupadas com o facto de a partir de Junho a TAP passar a escalar diariamente a Praia", o que vai ter impactos a nível operacional e financeiro para a transportadora cabo-verdiana.

"Estou sempre aberto a qualquer discussão, desde que faça sentido. Não para entrar num estilo de co-gestão, porque neste momento a empresa não aguenta uma situação dessas. Não estou preparado para me sentar todos os dias com os sindicatos e dizer-lhes o que vamos fazer. Tomamos as nossas medidas e se não cumprirmos o accionista despede-nos", afirma.

Em resposta à acusação de falta de melhorias, o gestor canadiano afirma que a TACV vai aumentar a frota de aviões a jacto, prevendo passar a operar quatro a partir do verão, o duas vezes mais do que actualmente.

Além disso, aponta, foi conseguido um corte de 20 por cento no pessoal, a empresa foi cetificada internacionalmente em termos de operações e segurança, e está a entrar em novos mercados, nomeadamente na Europa de Leste, além de operar novas rotas, como Lisboa-Sal e Lisboa-Bissau.

Acusando a direcção de gestão "ruinosa, caótica e incompetente", as associações de Trabalhadores da TACV, pilotos, técnicos de aeronaves e de comissários e assistentes de bordo vieram hoje a público exigir a demissão da gestão de topo, o que Filatreault recusa.

"Se não acreditasse no projecto ter-me-ia ido embora há muito tempo. A TACV ainda é uma empresa muito jovem e tem o potencial de crescimento, especialmente no que diz respeito à Europa Central e de Leste, África, Brasil. Há muitas empresas interessadas em trabalhar connosco. Pedem-nos para voar para a Mauritânia, para a Gâmbia. Há negócio, mas temos de ir lá buscá-lo", afirma.

Para isso, a TACV tem de operar com maior rapidez, aproximando-se do modo de funcionamento de uma companhia "charter", e abandonando algumas rotas fixas e pouco rentáveis o que implica "mudanças de mentalidade".

"Temos que trabalhar numa base de flexibilidade. Fazer um voo hoje e estar lá amanhã outra vez, porque há mais dinheiro a ganhar. Temos de ir onde está o dinheiro. É uma mentalidade diferente e temos de tomar decisões rápidas, acompanhar as mudanças do mercado. Certificarmo-nos de que o investimento que fazemos é de retorno rápido, defendeu.

"Dentro de dois ou três anos Cabo Verde vai entrar na política de céus abertos [da União Europeia]. O que é que [os contestatários] vão fazer então? Pedir protecção? Se não mudarem de mentalidade e atitude agora, não vão sobreviver. Tentar segurar tudo o que têm agora é um sonho falso, que será desfeito dentro de pouco tempo", afirma.

Em relação à privatização, que chegou a estar prevista para o primeiro semestre do ano passado, o director da TACV afirma não ser ainda possível determinar quando avançará, mas apesar disso já há potenciais investidores a acompanhar o processo, nomeadamente dois na área de carga e handling, outros na gestão, alguns estritamente financeiros, e também companhias aéreas, que se escusa a nomear.

Em qualquer caso, as "perdas acumuladas da TACV são tão elevadas" que será necessária uma redução do passivo antes que o processo possa avançar.

Está previsto que o Estado cabo-verdiano retenha 49 por cento, cedendo três por cento a interesses locais e o restante a um parceiro estrangeiro.

Lusa