- Home
- Informação
- Estudos
- Colonialismo: entre rupturas e retomadas
Colonialismo: entre rupturas e retomadas
- Por Africanidade
- Publicado 12/04/2008
- Estudos
O colonialismo
na África acabou formalmente, mas ainda perduram práticas consideradas
coloniais. Internamente, o continente perpetua, principalmente através das suas
elites, alguns modelos e padrões implementados por ocasião da colonização
europeia. Já os países desenvolvidos, muitos dos quais ex-metrópoles, mantêm
políticas exploratórias e assistencialistas nas suas relações com os países
africanos. Oscilando entre a continuidade e a ruptura com o seu passado
recente, a África procura um novo caminho para seu desenvolvimento e afirmação.
Ainda que a
presença europeia na África se tenha iniciado na época dos descobrimentos
(século XV), apenas após a independência das colónias americanas (primeira
metade do século XIX) registou-se a “corrida” pela conquista e subsequente
partilha do continente. O historiador Wolfgang Adolf Karl Döpcke, da
Universidade de Brasília, conta que, por volta de 1876, somente 10% do território
africano tinha estado sob domínio colonial. Duas décadas mais tarde, esse
percentual alcançava 90%. E já no início da década de 1950 o curto período
colonial começou a sua decadência. “Mesmo assim, o colonialismo deixou um
legado significante e profundo, que ainda representa os vectores básicos das
realidades actuais das sociedades do continente”, afirma Döpcke. Francisco
César Almeida, professor de sociologia geral na Universidade Agostinho Neto, em
Angola, ressalta ainda que “a colonização produziu novas entidades geográficas,
culturais e políticas, híbridas, mestiças, sem passado além do colonial. São
essas as nações africanas que temos hoje, vivendo uma vida caricata”.
Rumos da colonização
O fenómeno da
colonização africana não pode ser analisado como uma unidade homogénea. A
diversidade de colonizadores (portugueses, franceses, espanhóis, ingleses,
holandeses, belgas, italianos e alemães) e de povos colonizados demanda uma
avaliação do processo em sua multiplicidade, levando-se em conta não apenas as
semelhanças, mas também as diferenças de cada colonização.
Para João
Milando, sociólogo angolano e pesquisador do Centro de Estudos Africanos do
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), de Lisboa,
Portugal, é necessário levar em consideração o período histórico, o contexto
social e os aspectos concretos na hora de definir diferenças e semelhanças
entre as colonizações europeias na África. Em relação à legitimação do Estado
colonial, por exemplo, não houve diferença. “Todos eram Estados não apenas
ilegítimos, mas sobretudo alegítimos, porquanto a questão da sua legitimação
nem sequer foi posta”, avalia. Já quando se focaliza a miscigenação, as
diferenças sobressaem, com a colonização portuguesa destacando-se das demais.
“Seja qual for o aspecto analisado, a colonização marcou indelevelmente os
percursos históricos das sociedades que dela foram alvo”, frisa o sociólogo.
Segundo Döpcke,
inicialmente, os diversos colonialismos partiram de filosofias de dominação
bastante diferentes. “O africano ‘ideal' dos portugueses era, inicialmente, um
africano vestido de terno e gravata, evangelizado e letrado, recitando as
poesias de Camões. Para os ingleses, teria sido um chefe tradicional,
governando com legitimidade tradicional sua 'tribo' orgânica, mantendo ordem e
paz (colonial) entre os seus membros e suprimindo liberdades individuais,
fornecendo mão-de-obra migrante e recolhendo impostos”, exemplifica.
Mas, em
seguida, as diversas práticas de dominação colonial se aproximaram. A
influência cultural e a miscigenação, que marcaram a colonização portuguesa,
atingiam minorias e não as sociedades subjugadas. Já os ingleses, depois da
Segunda Guerra Mundial, abandonam seu ideal romântico da África “tradicional”,
cortam os laços estratégicos com as elites tradicionais e coroam o africano
individualista, inovador e pragmaticamente ocidentalizado como seu novo herói
cultural. “A partir daí, a mais recente historiografia enfatiza mais as
semelhanças entre os diversos colonialismos em vez das diferenças, apesar das
ressalvas sobre generalizações grosseiras”, explica Döpcke.
Independência
O processo de
descolonização na África começou na década de 1950. Assim como a colonização,
foi relativamente curto e trilhado de maneira diversa por cada ex-colónia. Depois
da Segunda Guerra Mundial, inicia-se um novo ciclo. O modelo colonial deslegitima-se
rapidamente, devido a vários factores.
Cada potência
tinha o seu modelo favorito de transferência de poder. André Luiz Reis da
Silva, pesquisador em relações internacionais e história contemporânea,
ressalta que na África inglesa a descolonização foi menos conflituosa do que na
francesa. A França retardou o processo através de infrutíferas mudanças e
tentativas de integração das antigas colónias. “Como a Conferência de Brazzaville,
da qual nenhum africano participou, mostrando o carácter unilateral da
negociação francesa”, exemplifica no artigo África contemporânea: os novos desafios da segurança, desenvolvimento e
autonomia (1960-2005). As colónias portuguesas, por sua vez, tiveram
independências mais tardias, entre 1974 e 1975, após um longo processo de luta
armada.
As resistências
mais ferozes à independência, em alguns casos, eram articuladas por colonos
brancos. Döpcke lembra de dois exemplos: do Zimbabwe, onde apenas uma guerra de
libertação (1966-1979) gerou condições para a descolonização; e da África do
Sul, em que a posição dos brancos contra a democracia e igualdade racial
incitou uma reacção do nacionalismo africano e levou o país à beira de uma
guerra civil. Já no caso das colónias portuguesas, os colonos brancos não
representaram a principal força contra a independência. “Parece que neste caso
a determinação da metrópole de permanecer na África foi mais relevante. O
regime salazarista sentiu um forte vínculo de identidade, ideológico e
económico, entre a permanência do império português na África e a sua própria
sobrevivência no poder, resistindo com guerras coloniais até 1974”, avalia.
Os
colonizadores participaram dos processos de descolonização procurando garantir os
seus interesses. Desta forma, entram “em um processo que influirá de maneira
decisiva no seu próprio futuro político, económico e geo-estratégico”, aponta
Almeida. “No centro das preocupações europeias não estão o futuro
desenvolvimento da África ou as elucubrações modernosas sobre civilização.
Tratou-se de encontrar novas fórmulas, novos moldes, novas estratégias, novos
condicionamentos que garantissem a satisfação das necessidades dos europeus”.
Continuidade e ruptura
A relação com
as ex-metrópoles também assegura a dependência e exploração dos países
subdesenvolvidos pelos desenvolvidos, numa relação de troca desigual. “A
proclamação da independência nacional apenas pôs fim a um tipo de relações, mas
não anulou a relação, a inter-relação, a intimidade. O que aconteceu naquele
momento foi que nasceu um novo tipo de relação, em função de novas necessidades
de uns e de outros”, resume o sociólogo angolano Almeida.
Por outro lado,
não devem ser desconsideradas as mudanças ocorridas depois das independências.
Segundo Döpcke, em todos os países, africanizaram-se rapidamente o Estado e o
serviço público. “A Nigéria, por exemplo, transformou-se de uma colónia
clássica agro-exportadora, teoricamente mais igualitária, na qual a massa de
camponeses socialmente nem tanto diferenciada produziu as riquezas exploráveis,
num um país independente exportador de petróleo, com um dos maiores índices de
diferença social do mundo e uma elite 'cleptocrática' explorando as riquezas em
benefício próprio”, aponta.
Na década de
1960, ainda com muita esperança e optimismo, vários Estados reflectiram
criticamente sobre a inserção africana na divisão internacional de trabalho
como fornecedora de matéria-prima. A tentativa de reverter esse legado
colonial, através de uma política de industrialização e desenvolvimento agrário
integrado, dirigida e implementada pelo Estado, entretanto, falhou, tanto por
razões externas (crise de petróleo e endividamento), quanto internas.
Para Döpcke,
ainda que existissem opções e alternativas a partir do momento da
descolonização, elas eram bastante limitadas. “Não somente o legado colonial,
mas também as novas influências internacionais, que em boa parte fortaleceram
as continuidades com a época colonial, os discursos hegemónicos sobre o Estado,
sobre desenvolvimento e industrialização e as preferências das grandes
potências na Guerra Fria, formaram um conjunto de influências do qual a África
dificilmente conseguiu escapar”, enfatiza.
Todos os modelos
de desenvolvimento defendidos até agora, tanto pelas elites africanas quanto
pela “comunidade” internacional interessada, fracassaram, uma vez que a
economia não está dissociada da política. O desenvolvimento sustentável das
sociedades africanas passaria pela participação política popular. Para Almeida,
a África precisa inovar na construção de uma percepção própria da nação e dos
papéis do Estado, da interacção política, económica e social entre eles. “É
preciso também consolidar a identidade e a unidade concebidas durante a luta de
libertação nacional, pensar fórmulas de desenvolvimento capazes de romper a
pressão gerada pelas necessidades vindas do exterior do continente, reconstruir
as ideologias e repensar o papel das elites nacionais”, pontua.
Exploração x assistencialismo
Um dos exemplos
mais claros da manutenção do tipo de relação colonial é o caso da Sida. Segundo
dados do relatório Situação da
epidemia de Aids 2007 do Unaids, Programa Conjunto das
Nações Unidas sobre HIV/Aids, a África subsaariana é a região com maior número
de pessoas infectadas com o vírus HIV. Ao todo, 22,5 milhões de pessoas vivem
com o vírus na região, representando 68% de todos os portadores do vírus no
mundo e 76% dos óbitos relacionados à doença. É nesse contexto que os países
desenvolvidos têm achado terreno fértil para implementar políticas
exploratórias e assistencialistas.
Em geral, as
expectativas de que a África poderia alcançar uma melhoria das condições de
vida dos grupos sociais mais desfavorecidos através da cooperação internacional
não se têm concretizado. “Tal como vem funcionando, a cooperação com a África
cria mais problemas às sociedades africanas do que aqueles que pretende
supostamente resolver. Os resultados até agora alcançados da cooperação sugerem
que o ‘desenvolvimento' induzido por essa via tem sido um instrumento para a
subalternização de sociedades, contribuindo para o seu colapso”, reflecte
Milando.
Em uma
entrevista concedida em 2005 à revista alemã Der Spiegel o especialista em economia James Shikwati, do Quénia,
aponta que a Aids talvez seja o maior negócio da África. “Não há nada capaz de
gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. Ela é uma
doença política aqui”, afirma. Para ele a ajuda internacional à África é mais
prejudicial que benéfica, uma vez que alimenta a corrupção e impede que a
economia local se desenvolva, gerando mais miséria e mais dependência.
“Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a
complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não
independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados
locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos”,
elenca.
Além da
vertente assistencialista das relações pós-coloniais em relação à Aids,
caracterizada pela “ajuda” aos países africanos, existe também a vertente
considerada exploratória, cuja principal protagonista é a indústria
farmacêutica. Muitas pesquisas que visam o desenvolvimento de novas drogas de
combate à Aids são realizadas na África sem seguir os preceitos éticos das
pesquisas em seres humanos e a despeito da segurança dos pacientes.
No artigo As vítimas da Big Pharma publicado no jornal francês Le Monde Diplomatique, Jean-Philippe Chippaux, médico e director
de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), de Dacar,
elenca alguns problemas éticos suscitados pelas pesquisas em questão: ausência
de consentimento dos sujeitos, informação sumária, controle terapêutico
insuficiente, benefício imperceptível para o doente ou para a população.
Segundo ele, no
continente africano, os custos dos laboratórios são até cinco vezes menores do
que nos países desenvolvidos. Além disso, as condições epidemiológicas na
África revelam-se constantemente mais propícias à realização de testes: frequência
elevada de doenças, sobretudo infecciosas, e existência de sintomas não
atenuados por tratamentos reiterados e intensivos. “Enfim, o carácter dócil dos
pacientes, em grande miséria, dada à pobreza das estruturas sanitárias locais,
facilita as operações”, diz.