Dos cinco grandes
continentes do globo, o africano é o que tem a imagem mais homogénea ao olhar
estrangeiro: ao mesmo tempo em que figura como a origem de todos os negros do
planeta – imagem que se sobrepõe à de origem da própria espécie humana –, é
visto como um lugar exótico, ainda habitado por grandes animais selvagens, como
elefantes, girafas, gorilas e leões, eternamente marcado por guerras civis,
muito distante do desenvolvimento atingido pelas nações ricas do mundo
ocidental e onde impera a pobreza da maior parte da população. De fato, um
grande estereótipo que não condiz com olhares mais atentos. Afinal, se
considerarmos que o continente africano é recortado por mais de 80 mil km de
divisas, na somatória das 109 fronteiras que separam suas 54 nações actuais, é
prudente perguntar: “De que África estamos falando?”
Dos cinco grandes
continentes do globo, o africano é o que tem a imagem mais homogénea ao olhar
estrangeiro: ao mesmo tempo em que figura como a origem de todos os negros do
planeta – imagem que se sobrepõe à de origem da própria espécie humana –, é
visto como um lugar exótico, ainda habitado por grandes animais selvagens, como
elefantes, girafas, gorilas e leões, eternamente marcado por guerras civis,
muito distante do desenvolvimento atingido pelas nações ricas do mundo
ocidental e onde impera a pobreza da maior parte da população. De fato, um
grande estereótipo que não condiz com olhares mais atentos. Afinal, se
considerarmos que o continente africano é recortado por mais de 80 mil km de
divisas, na somatória das 109 fronteiras que separam suas 54 nações actuais, é
prudente perguntar: “De que África estamos falando?”
Houve um contacto
intenso com povos árabes e uma forte influência de sua cultura ao Norte do
continente, em uma faixa que abrange desde países mais próximos do Oriente
Médio, como a Somália, a Etiópia, o Sudão e o Egipto, passando por toda a costa
do Mediterrâneo, onde estão Tunísia, Argélia e Marrocos, e se estende até a
Mauritânia, já na costa do Atlântico. Para se ter uma ideia, na Mauritânia, o
árabe é a língua oficial, que convive com outras cinco, incluindo a dos
colonizadores franceses; e praticamente toda a população é de religião
islâmica. Se por um lado é possível apontar semelhanças como essas entre certos
países, não faltam exemplos de peculiaridades que os distingam.
Enquanto a paisagem do
maior deserto do mundo, o Sahara, recorta lugares como Argélia e Líbia, ao
Norte da África, e a Nigéria, na região Oeste – esse três, membros da
Organização dos Países Exportadores de Petróleo –, imensas florestas tropicais
caracterizam a África Central, onde fica o Congo. Até em uma mesma região, como
o sul da África, há contrastes entre vastos desertos, como o Kalahari, que
recorta Botsuana, Namíbia e África do Sul, e grandes vales férteis, como os
banhados pelo rio Limpopo, que forma parte da fronteira entre a África do Sul,
Botsuana e Zimbabué, percorre o território de Moçambique, até desaguar no
Oceano Índico. Também é nítido o contraste entre o desenvolvimento económico da
África do Sul e a pobreza de seus vizinhos; e no Leste da África, embora também
tenha enfrentado conflitos internos recentes, o Quénia é uma nação melhor
estruturada e mais urbanizada do que países com problemas gerados por guerras
civis históricas, como Somália e Etiópia, com os quais faz divisa.
Até internamente os
países africanos também têm sua diversidade. Com uma área total de cerca de 924
km quadrados – o equivalente à região Sudeste brasileira – a Nigéria é o país
mais populoso da África, com mais de 135 milhões de habitantes. Ali vivem
pessoas de mais de 250 etnias, dentre as quais as maioritárias são Hausa,
Fulani, Yoruba e Igbo, que juntas representam 68% da população e cujos
respectivos idiomas são as línguas nacionais nigerianas, ao lado da oficial
herdada do colonizador inglês.
“O continente é um
mosaico de nações, povos, costumes, religiões. Em termos políticos e de
desenvolvimento, há muitas diferenças, certamente. O impacto de um tipo de
colonização (francesa, inglesa ou portuguesa) estruturou a economia e a
política dos diversos países de forma diferente, do mesmo modo que a trajectória
de cada um desses países e as opções políticas realizadas depois das
independências nacionais”, afirmou Tereza Cruz e Silva, do Centro de Estudos
Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique, em entrevista à ComCiência. Um grupo de ex-colónias
francesas, por exemplo, após sua independência, seguiu uma política
conservadora tanto interna quanto externamente. Ela baseava-se nos laços
políticos, económicos e culturais entre a França e as novas classes dirigentes
da África, para quem a continuação da presença e influência francesa no
continente era útil, em troca de cooperação e assistência financeira.
Já países como Guiné,
Mali, Marrocos, Argélia, Líbia, Egipto, Sudão e Etiópia, que se alinharam à
Gana e ficaram conhecidos como “grupo de Casablanca”, tiveram uma postura mais
radical. Gana foi a primeira nação na região abaixo do deserto do Sahara a
conquistar, em 1957, sua independência, sob a liderança de Kwame Nkrumah.
Primeiro presidente de seu país no período pós-colonial, Nkrumah criou ali a
base para a propagação das ideias pan-africanistas no continente, que
consideravam a África como terra natal de todos os negros e pregavam a
independência das nações africanas e a criação dos “Estados Unidos da África”.
O pan-africanismo tem
sua origem na diáspora negra, no século XIX, e partiu de uma elite intelectual
na América do Norte e nos países de língua inglesa do Caribe, com adesões na
Europa e na África Ocidental. O movimento defendia a unidade dos africanos,
fosse ela cultural ou ligada ao flagelo da escravidão, da discriminação racial
e da submissão nas colónias. Do I Congresso Pan-africanista, realizado em 1900,
para o VI, que aconteceu em 1945, na Inglaterra, o enfoque foi gradativamente
concentrando-se mais nas questões internas do continente africano. Gana sediou,
em 1958, uma conferência na qual foi defendida a criação de um parlamento
africano e de uma moeda única para uma sonhada Comunidade dos Estados Africanos
Livres. O evento aconteceu um ano após seis países da Europa ocidental terem
firmado o acordo que criou o Mercado Comum Europeu, embrião da atual Comunidade
Europeia, que tem seu parlamento e o euro como moeda comum. Embora o
pan-africanismo tenha se desintegrado em diversos partidos nacionais que
lutavam pela independência de seus respectivos países, o movimento deixou suas
marcas em todo o continente.
Ele é uma das
influências apontadas pela pesquisadora moçambicana como fonte de inspiração
para o processo de independência em seu país, que fica no sul da África, e
portanto, distante geograficamente dos países do norte que formaram o grupo de
Casablanca. Além do pan-africanismo e das pressões internacionais após a
Segunda Guerra Mundial, Teresa Cruz e Silva aponta a influência de missões
religiosas suíças na formação de personagens que conquistaram destaque no
período pós-colonial, entre os quais Sebastião Mabote, que integrou a Frente de
Libertação de Moçambique (Frelimo). Essa organização guerrilheira iniciou, a
partir da vizinha Tanzânia, a luta armada pela independência de seu país,
conquistada tardiamente – como a das demais colónias portuguesas – em 1975.
Após esse período, a organização se tornou um partido político. “Num contexto
em que a Igreja Católica andava de mãos dadas com o regime colonial, as igrejas
protestantes, particularmente a presbiteriana, desempenharam um papel
importante na luta pelo desenvolvimento de uma consciência nacional. No
entanto, elas não abrangeram a maioria da população moçambicana, já que as suas
actividades se restringiam ao sul do país”, conta.
As fronteiras na
África sempre tiveram e continuam tendo uma importância histórica: além da
possibilidade de atravessá-las para organizar a luta armada contra os
colonialismos e os regimes racistas no Sul do continente, também conhecido como
África Austral (caso de Moçambique, Angola, Zimbabwe, Namíbia e África da Sul),
as fronteiras também representam para milhões de africanos a única chance de sobreviver
às guerras civis nos seus países. A actual divisão geopolítica no continente
tem sua origem no que ficou conhecido como Partilha da África, iniciada na
Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885, com a presença dos colonizadores e de
outras nações europeias. “Essas divisões administrativas não dividiram as
culturas. Moçambique partilha culturas e identidades com os países vizinhos”,
observa Teresa Cruz e Silva.
De acordo com o
historiador Wolfgang Döpcke, da Universidade de Brasília (UnB), as divisões de
território entre os povos não eram uma novidade para os africanos antes da
Partilha. E segundo ele, também nos períodos pré-coloniais elas não separavam
culturas. “Elas distinguiam entidades políticas, de tamanho muito variado, e
não culturais, linguísticas ou étnicas. Em regra, as entidades políticas, sejam
elas pequenas chefias ou grandes impérios, eram menores ou maiores do que as
identificações étnicas ou culturais”, diz Döpcke. “As fronteiras dos grandes
Estados ou impérios nunca englobaram apenas uma etnia, língua ou grupo
cultural. Eram máquinas de integração de grupos, sociedades, chefias de
diversas origens, tradições, línguas etc. A etnicidade poderia ter tido uma
certa importância, mas não para definir a ‘identidade' do Estado, que era definida
politicamente, e sim para estruturar a hierarquia interna”, completa.
O pesquisador Carlos
Cardoso, do Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em
África, de Guiné-Bissau, aponta que em seu país deviam existir durante o século
XVIII entre setenta e oitenta diferentes reis e chefes tradicionais de grupos
étnicos com seu próprio território e sua própria organização social e política.
Mas segundo ele, todos estavam, de uma maneira ou de outra, submetidos ao reino
mandinga. Actualmente, os Mandinga representam 13% da população, mesmo
percentual de outras etnias africanas minoritárias, acima de 1% dos europeus ou
descendentes de europeus e em menor número que os 14% de Majacas, 20% de Fulas
e 30% de Balantas.
Döpcke, da UnB,
aponta um caso curioso envolvendo a relação entre povos Chewa e Ngoni, já no
período pós-colonial, no triângulo fronteiriço entre Malaui, Moçambique e
Zâmbia. “As pessoas, assim divididas no seu espaço cultural, não somente se
moviam livremente na região fronteiriça, mas também seleccionavam criticamente
as ‘ofertas' que cada Estado fazia. Zambianos atravessam a fronteira para se
aproveitar das boas e abundantes terras em Moçambique, mas deixam os seus
filhos nas escolas de Zâmbia, que são consideradas melhores. Residentes em
Moçambique e Malaui também mandam os seus filhos para a escola em Zâmbia. São
utilizados, também, os serviços médicos no lado da fronteira daquele país pelas
três nacionalidades, uma vez que em Malaui eles não são gratuitos e, no lado
moçambicano da fronteira, não existe hospital. Além disso, agricultores de
Moçambique usam os serviços de extensão agrícola de Zâmbia e também vendem os
seus produtos nesse país”, ilustra o historiador. A África de que estamos
falando é um mosaico de realidades culturais, políticas e económicas, onde a
diversidade caminha lado a lado com o partilhamento de identidades e as
fronteiras são extremamente permeáveis.
Por Rodrigo Cunha-ConCiência