Os problemas na indústria petrolífera nigeriana está a reforçar o estatuto de Angola como o produtor regional mais seguro e, caso se prolonguem, deverão mesmo dar-lhe o "título" de maior produtor de petróleo da África Ocidental.

Com a produção angolana a crescer em virtude do início de produção de importantes novos poços - sobretudo Mondo e Plutónio - apesar de agora constrangida à quota da OPEP (1,9 milhões de barris diários), a instabilidade social na Nigéria tem vindo desde o início do ano a causar constantes perturbações na indústria, que na semana passada chegaram mesmo a causar uma interrupção de mais de metade do fornecimento petrolífero.

Nestas condições, "é definitivamente um cenário possível" Angola tornar-se no maior produtor petrolífero da região, afirmava esta semana à Reuters o principal analista de reservas petrolíferas mundiais da Agência Internacional de Energia, David Fyfe.

"Volumes substanciais da produção do delta do Níger continuam a ser afectados pelos problemas [ataques de rebeldes e greves]. Com um hiato temporário em novos desenvolvimentos em águas profundas, mais problemas no delta podem certamente causar danos às exportações petrolíferas totais da Nigéria", refere o mesmo responsável.

Em relação à Nigéria, a indústria angolana de petróleo tem a vantagem de se concentrar no "off-shore", estando a salvo de qualquer tipo de acto de terrorismo, de qualquer forma improváveis tendo em conta a relativa estabilidade que o país vive desde o final da guerra civil, em 2002.

"A indústria vital da Nigéria, cercada por rebeldes disputando o controlo de petróleo produzido no seu quintal e criminosos que perfuram oleodutos e roubam petróleo para exportações ilegais, está a perder mais de metade do seu débito, numa altura em que os preços do petróleo estão no seu ponto mais alto de sempre", escrevia na passada semana a agência Reuters.

Embora as principais reservas identificadas em Angola estejam no "off-shore", o que obriga a mais avultados investimentos em desenvolvimento, o facto de a segurança ser maior traduz-se em custos operacionais significativamente mais baixos.

A quebra da semana passada atingiu 1,3 milhões de barris, incluindo a produção de importantes instalações da Exxon Mobil e Royal Dutch Shell no delta do Níger, a principal região produtora de petróleo.

Os analistas esperam que em Maio as exportações nigerianas recuem para 1,9 milhões de barris, quando Angola, que tem uma quota inferior à nigeriana, tem vindo a exportar acima dos 1,9 milhões e "ameaçando" chegar aos dois milhões, sobretudo para colmatar a procura nigeriana.

O crude angolano é do tipo "pesado" e possui maior quantidade de enxofre do que o nigeriano, mas o seu preço é geralmente inferior.

Um analista que falava à Bloomberg sob anonimato referia que a actual perturbação na Nigéria "deve gerar maior interesse para a mais estável produção angolana, da parte daqueles que podem operar com as qualidades [de petróleo] mais leves [do que as nigerianas]".

Para este ano, é esperado o início da produção de três novos campos em Angola, que deverão representar uma capacidade adicional de produção próxima dos 350 mil barris diários.

O maior destes, Mondo, operado pela norte-americana Exxon Mobil, deverá debitar perto de 100 mil barris diários quando em velocidade de cruzeiro.

O campo Plutónio, da BP, começou a produzir em Outubro, e no próximo ano o seu débito deverá aumentar para perto de 200 mil barris diários.

Paralelamente, aguarda-se o arranque do processo de atribuição de 10 novos blocos de exploração petrolífera nomeadamente nos blocos "on-shore" de Cabinda e Kwanza.

O concurso vai também abranger concessões nos blocos 9 (águas rasas), 19, 20, 21 (águas profundas) assim como 46, 47 e 48 (águas ultra-profundas).

Angola foi o principal fornecedor de petróleo da China no primeiro trimestre do ano, ultrapassando a Arábia Saudita, devido a um aumento das exportações em 55 por cento, segundo dados recentemente divulgados pelas Alfândegas da China.

A principal incógnita na indústria petrolífera angolana é actualmente a durabilidade das reservas - 17,6 anos, ao ritmo de extracção actual, de acordo com um estudo recente da Espírito Santo Research divulgado em Luanda e Lisboa.

As reservas, segundo a mesma fonte, estão avaliadas em nove mil milhões de barris, 7,5 por cento do total em África, mas com novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento poderão atingir 30 a 40 mil milhões.

Para tal, dados da Sonangol indicam ser necessário um investimento de perto de 66 mil milhões de dólares nos próximos três anos - em pesquisa, exploração e desenvolvimento - dado que as principais reservas potenciais estão em águas profundas e ultra-profundas.
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