Meu irmão esquece esse palavreado em torno das riquezas de Angola. Deixa de repetir, cegamente, que somos o país que mais cresce no mundo. Esquece isso, meu irmão!



Na verdade, a actual situação de embaraço político na Guiné-Bissau, de complexidade histórica e sociológica, é consequência de les enjeux políticos nacionais, mas também começa a testemunhar alguma falta de consolidação de posições por parte da comunidade internacional. Na procura de soluções duradouras (progressivas) para o país, não podemos considerar apenas que os problemas da Guiné-Bissau são consequências tout court das acções militares, muito pelo contrário. As (re)acções militares sempre foram consequências de causas e/ou instrumentalização políticas. Sou da opinião de que é urgentíssimo trabalhar de forma a garantir e proteger as instituições democráticas do país. Mas, os reais desafios residem na construção de um diálogo sincero baseado num “Contrato Social”, que permita o reencontro da ordem social. O “Contrato Social” deve trazer consigo a verdade de os guineenses aceitarem cordialmente e reconhecerem, ainda que de forma implícita, as suas limitações durante o “insolvente” processo de construção da nação guineense, que tanto autorizou o surgimento de divisões, crispações políticas, étnicas e sociais profundas.
Cabo Verde festeja hoje 35 anos de independência com motivos para sentir orgulho: relatórios internacionais apontam esta república de língua oficial portuguesa como um caso exemplar no contexto africano. É um país onde a democracia funciona, a alternância política se tornou uma realidade, o investimento estrangeiro começa a frutificar, nomeadamente no turismo, e as relações com a antiga potência colonial são excelentes. Apesar das dificuldades climatéricas, é um dos mais promissores países africanos.



A cimeira de Luanda e a credibilidade da CPLP já estão ameaçadas pela eventual aceitação do pedido da Guiné-Equatorial, observador associado desde 2006, para se tornar membro de pleno direito. Se a tropa da coca guineense sair impune da cimeira de Luanda e Teodoro Obiang, o ditador cleptocráta e megalómano do petróleo da Guiné-Equatorial, conseguir levar a sua avante a credibilidade e honorabilidade da CPLP não valem uma castanha de caju. 



É animador ouvir os especialistas estrangeiros garantirem que somos a economia do mundo que mais cresce e que seremos, de longe, o mais próspero país de África. Mas o doloroso regresso a Angola real obriga-nos a reavaliar as projecções das organizações internacionais e a repensar as garantias dos especialistas estrangeiros. Por isso, e por mais que doa e custe a muitos, a minha geração precisa de questionar, repensar e debater tudo aquilo que se tem dito sobre as míticas riquezas de Angola. 



Que ânsia é esta que leva um PR a falar dos processos judiciais em curso fora do país a uma revista de renome internacional? Malam tem uma figura de homem pacato, mas acaba por revelar alguma frieza ou ingenuidade extrema perante esta abordagem aos graves problemas que a Guiné atravessa.
Mas digam-me porque é que a RDP África não emitiu a cerimónia de outorga do doutoramento honoris causa pela Universidade Técnica de Lisboa ao Presidente Pedro Pires? Há poucas semanas, no Algarve, o escritor Pepetela recebeu idêntica distinção e teve honras de transmissão directa pela rádio lusa que se diz de África. É claro que Pepetela é mais importante que o chefe de Estado de Cabo Verde, essa terra de pouca gente e sem um grande mercado; é claro, não fossem escuras tantas noites e tantas coisas banhadas de morabeza.